Archive for maio, 2010

A “grande mudança” da Folha

24 de maio de 2010

A decepção é sempre proporcional a expectativa. Pra mim este foi o maior e, ainda bem, um dos únicos erros visiveis da nova proposta gráfica e editorial da Folha de S. Paulo, agora unindo as operações da redação do jornal impresso com do noticiário online. O fato de não ter atingido muitas das expectativas não se deve apenas a uma incapacidade da empresa, já que os novos formatos jornalísticos são um desafio em todo o mundo, mas de ter prometido durante muito tempo este alvo tão distante.

Isto posto, seguem alguns links interessantes sobre os bastidores e a repercussão da reforma:

– O “Novo Em Folha”, blog acostumado a contar os bastidores de jornal, fez jus ao seu nome e foi literalmente atrás do que havia de novo naquela Folha: Chamou os editores dos cadernos e os coordenadores no novo projeto para comentar as mudanças.

– Foi encomendado a Spray Filmes, com direção de Fernando Grostein Andrade um documentário para registrar o momento. Assim surgiu o bem feito “Jornal do Futuro”.

– Morte ao texto mal escrito! O editorial de Sergio Dávila chegou a causar ira. Há um bocado de exagero, mas com uma boa dose de razão.

Passione: Dúvidas e certezas

16 de maio de 2010

Na véspera da estréia do novo folhetim das 8 da Globo, alguns comentários cabem ao evento:

– Cleyde Yáconis declararam a Folha deste domingo a segurança que sentem ao participar de uma novela de Silvio de Abreu. Oferecem menos riscos de equívocos segundo ela. Mas o que se nota é que o autor anda sim experimentando novos caminhos. Falar da Itália, terreno típico de Benedito Ruy Berbosa, e que não seja numa trama de época não é muito comum. Ainda mais quando o autor já adianta que à partir do capítulo 100 acontecerá uma grande virada.

– Às vésperas da estréia da novela ainda acontece uma grande incoerência da comunicação visual. Observe:

Logo usado nas chamadas da novela

Logo usado nas artes da festa de lançamento e impressos, como este na Folha de S. Paulo do último sábado.

Novos formatos de jornalismo na TV: “A Liga” (parte 1)

11 de maio de 2010

Este texto foi originalmente postado no meu Tumblr, mas por abranger assuntos além do jornalismo achei justo publicá-lo aqui também. Por conta do que aconteceu no segundo episódio do programa decidi publicar uma continuação ao tema, que vai ao ar aqui em breve.

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Nenhum assunto fica bem explorado se não for criticado à mesma altura que for elogiado. Por isso esperei um pouco mais para comentar a estreia de “A Liga”, produção nacional da Band do formato criado pela produtora argentina Quatro Cabezas.

Neste domingo, o caderno Ilustrada da Folha publicou a critica de Roberto de Oliveira sobre o programa. Ao contrário do comentário publicado no blog Jornalismo B, Roberto foi cheio de críticas, algumas válidas outras exageradas. Vamos analisar os pontos:

Roberto destaca o fato do repórter se confundir com entrevistado e responder pelo próprio. É uma crítica válida, mas apenas para Rafinha Bastos. A técnica de se disfarçar para sentir na pele o drama do personagem da reportagem é bem polêmica (a crítica na Folha a compara a um quadro apresentado por Gugu anos atrás no SBT), mas foi utilizada apenas ele. Nenhum dos outros repórteres do programa se passou por “personagem” na matéria, e mesmo assim cantando muito bem todas aquelas histórias.

Já o “jornalismo gonzo” seria muito adequado para o CQC — até um elogio talvez — mas não para “A Liga”, que se mostrou um ótima contribuição para o jornalismo. Um dos momentom do primeiro episódio de “A Liga” que deixa bem clara esta diferença entre os dois produtos da Band é quando Thaíde vai até a padaria onde Rafinha, vestido de mendigo, foi proibido de entrar. Mesmo com a quantidade de absurdos proferidos pelo proprietário o enviado do programa surpreendentemente mantém a calma e conduz a conversa de forma bem humorada, algo que com certeza não aconteceria da mesma forma no CQC. Provavelmente o repórter mandaria indiretas para hostilizar o entrevistado.

Talvez more aí a grande virtude do novo programa: Saber ouvir. E a cena em que Débora Villalba acompanha meninos de rua no Rio de Janeiro ilustra muito bem esta qualidade. Apesar dos assuntos delicados que a repórter tratava, como problemas familiares e uso de drogas, não transparecia nenhum juízo de valor dentro dos diálogos, o que facilitava muito o diálogo.

Apesar de todos estes acertos, se estivesse na “Liga”, Caco Barcelos com certeza ressaltaria uma grande lacuna por preencher no programa: Pouco se sabe da origem destas pessoas, como chegaram até a rua. Seria um dado muito importante para compreender o quadro atual que leva as pessoas a viverem na rua.

Se tratando de comparações entre programas, o que mais diferencia nais claramente  “Profissão Repórter” de “A Liga” é a sua formatação para o telespectador. Apesar dos pertinentes comentários de Caco Barcelos e todas as facetas do fato exportas durante o programa, “Profissão Repórter” ainda é muito mais um programa de jornalistas para aspirantes da área do que para o público comum. Já “A Liga” se distancia da discussão sobre técnicas de reportagem e análises sobre o trabalho dos repórteres e concentra muito mais no assunto principal, a própria reportagem.

Talvez até mesmo por sair da discussões de bastidores o programa acabe andando muito próximo do limite ético do jornalismo. Mas mesmo assim realiza um excelente trabalho. Longe de querer significar um “os fins justificam os meios”, o programa da Band consegue no âmbito geral ser muito mais eficaz no que realmente importa, que é dar voz aos personagens das histórias reais. Mesmo que hora ou outra esta voz seja sequestrada por um jornalista de fortes influências do mundo do entretenimento.

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O programa vai ao ar todas as terças às 22h. Você pode ver também na página de vídeos da Band.

PS: Alguém sabe explicar porque o programa aparece no site classificado como “Entretenimento”?